A mulher única


Há muito tempo penso em fazer um blog falando sobre as mulheres maravilhosas que passaram pela minha vida e que me ensinaram muitas coisas. E falar sobre as que não passaram também, como artistas, cantoras, ativistas etc., que não conheci pessoalmente, mas que nutro profunda admiração por suas trajetórias de vida. São mulheres incríveis, inclusive nas quais me inspirei para fazer coisas, deixar de fazer, nunca fazer, seguir em frente ou apenas para viver em estado de gratidão. 

Então, antes de começar fiquei pensando porque isso significa tanto para mim. Porque tenho o feminino tão forte e tão presente em mim. E a resposta veio rápido. Claro que minha mãe é meu modelo e uma das primeiras referências, mas me perdoe mãezinha, tem alguém que vive em mim e da qual eu não esqueço nunca, que considero como modelo principal de mulher, pois conseguiu transmitir sua singularidade e deixou o que considero a melhor herança que alguém poderia deixar: marcas profundas de amor. Essa figura é minha vó e ela já faleceu, então nem preciso dizer que falar dela é revirar sentimentos antigos e profundos.

Sei que minha mãe nem fica magoada de não ser a primeira nas minhas referências, pois compartilhamos profundamente desse mesmo sentimento por minha vó. Cada uma a sua maneira, claro.

Porém não consigo descrever minha vó assim tão simplesmente, por meras palavras. Eu não sei fazer isso descrevendo ela. Eu não sei porque não encontro palavras para descrevê-la, pois só consigo senti-la. Então imaginei que poderia escrever uma carta, como se fosse enviar para ela num lugar muito distante do qual ela não vai voltar, mas poderá ler. E aí eu pensei nisso e já me emocionei, mas lá vai, ela começa assim:

“Vó, é com muitas lágrimas nos olhos que te escrevo essa carta. Queria dizer o quanto sinto saudades quando lembro de você, ela fica imensa no meu peito, aperta meu coração e transborda pelos olhos. Como você está? Da última vez que te vi, você estava tão linda, com um vestido de linho branco com listras azuis, cabelo alinhado, braços abertos e sorriso no rosto. Eu estava pintando o muro da escola com meus amigos, era um trabalho artístico lindo, eu estava tão empolgada e quando estava lá pintando alguém me chamou e disse que você tinha chegado, nossa, lembro como se fosse hoje. Ai vó, nesse dia eu descobri como era ruim de desenho rsrs, mas estava feliz. Parece até que estava me preparando para recebê-la. Separaram a gente, lembra? Num dia estávamos juntos todos os dias, no outro eu estava em outro estado, longe de você e no meu coração de criança eu achava que nunca mais iria vê-la.

E também no meu coração de criança, eu parecia saber que aquele era o último dia que iria vê-la bem.

Vó, você me inspira até hoje, e até hoje não consigo colocar em palavras exatas a força que você transmitiu. Tenho uma lembrança forte de uma ocasião em que você tomava seu chimarrão numa pequena varanda da casa, contemplando o pôr do sol, sem dizer palavra, com um olhar tão longe e profundo. Era o seu momento. Lembro de sentar no chão ao lado da sua cadeira uma vez, você olhou pra mim, sorriu e me ofereceu o chimarrão. Compartilhou comigo seu momento mais íntimo, e com isso me ensinou respeito a todos os seres, e também me ensinou um autocuidado do qual não esqueci jamais. Quando fecho os olhos, vejo claramente seu rosto tomando chimarrão. Vejo cada parte dele, seus cabelos brancos, curtos e encaracolados, sua boquinha já cheia de rugas e o jeito como segurava a cuia.

Sabe vó, por alguma razão, não consigo lembrar de diálogos, ou de você falando muita coisa. Mas tenho gravado sua presença na minha mente e quando lembro de você, me parece muito presente e real. Mas não consigo identificar se esse sentimento é por causa da firmeza da sua voz, da força das suas ações, da doçura do olhar, do frango ao molho de sabor único, ou só a imagem dos seus vestidos alinhados mesmo.

Lembro de ti como mulher de poucas palavras. Seu abraço era como uma torre forte na qual eu me sentia abrigada. Segurar suas mãos macias e enrugadas, que pareciam estar sempre quentinhas, era uma sensação de alívio. Eu sei vó, estou falando de um olhar de sensações e pouco de quem você realmente era, mas é porque eu era tão pequena e no meu mundo eu entendia as coisas pelas sensações mesmo. Mesmo sem dizer palavra, você tocou profundamente meu coração, pois para mim você era uma figura mística, cheia de mistérios e ao mesmo tempo tão envolvente, tão mágica que se tornou minha referência para o resto da vida.

É assim que a guardo na lembrança, e volta e meia algo me lembra você. Algo que nem eu sei direito explicar por que. Às vezes é só aquela sensação de conforto que volta, às vezes é a imagem de uma senhorinha tomando seu chimarrão, o barulho da água do rio, aquele vestido clássico que não me sai da mente. Aquela foto sua subindo as escadas do avião. Você não tinha parada né vozinha? Se podia, viajava mesmo. E viajando você foi me visitar tão longe. Meu Deus como te admirei aquele dia. Vi que nenhuma distância é grande demais para quem se ama.

Você viu como todas suas filhas puxaram você? rsrs  Minha mãe e minhas tias não tem parada, algumas vão até para o exterior, como você com certeza gostaria de fazer. Você ia sentir muito orgulho delas vó, elas estão sempre se visitando e cada uma forma um elo forte de uma corrente que não se arrebenta. Como não te admirar vozinha? Seu legado e sua presença é constante e eu te amo tanto por isso. Te amo porque mesmo sem saber, nem imaginar, deixou coisas incríveis para todas nós. 

É uma herança tão bonita vó, tão valiosa que eu nem saberia avaliar o valor em qualquer tipo de moeda existente. Só sei sentir gratidão e amor. Muito amor. 

Eu sempre pensei em como seria nossa despedida, mas sem me dar conta, foi aquele dia. E foi a melhor despedida que alguém poderia ter de sua vó.

Sabe vó, eu tenho mais lembranças sim. De um outro tempo, um tempo em que você adoeceu e ficou na cama injustamente, sem poder levantar, sem poder viajar. E mesmo com tanta dor e sofrimento, conseguiu deixar em cada neto uma lembrancinha de amor. Então vou terminar recitando um poema que você recitou para minha irmã mais nova e que compartilhamos dessa lembrança até hoje. Vou recitá-lo porque ele representa exatamente o que sinto por você:

Desde o dia que te vi
fiquei te querendo bem
não te tiro do sentido
não te troco por ninguém

Fique bem vó, fique em paz. Queria te ver bem feliz, mas acho que se você estivesse aqui, estaria feliz sim. Tchau vó! Obrigada pelas lembranças e obrigada por tudo. Tudo mesmo. Te amo muito. Beijos. 

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